Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

"A Adega do Lélito, em Ferreira do Alentejo", Isabel Magalhães

Este ano passámos um fim de semana em Ferreira do Alentejo.

Resolvemos aceitar o convite do Fernando e da Guida para nos juntarmos, na Casa Verde e, por isso, viemos de Coimbra e de Aveiro até ao Alentejo, o que é sempre um prazer enorme.

Em Ferreira do Alentejo, há sempre motivos de distracção e de convívio e um deles, sem dúvida, é ir à Adega do Lélito beber um “branqueal”, termo que designa um pequeno copo de vinho branco.

Geralmente bebem-se vários “branqueais” dependendo do número de pessoas que lá se encontram, pois a tradição manda que cada um pague uma rodada.

O mais vulgar é bebermos entre cinco a sete rodadas, encostados ou sentados à volta do balcão, acompanhadas da “bóia” que cada um leva, que pode ser um bocado de chouriço, que se vai cortando em fatias finas ou ser o toucinho com sabor a presunto, “pois esse, o presunto, nunca o provaram”.

O Sr. Lélito vai enchendo os copos e pondo fatias de pão alentejano em cima do balcão e a conversa decorre animada com histórias e piadas finas a pretexto de tudo e de todos.

O Sr Brigadeiro, motorista e o Sr. Sabino, pequeno comerciante, ambos reformados, são os frequentadores diários que sempre lá encontramos e quando começo a beber o primeiro copo de vinho branco, a rirem-se, mandam-me um aviso certeiro “Cuidado com o pial” (que é o poial da porta), pois no dia anterior tinha tropeçado no primeiro degrau, quando ia a subir as escadas para a rua.

 Mas a adega do Sr. Lelito tem uma história vivida por um dos protagonistas deste encontro, de Ferreira do Alentejo.

 Há cerca de quinze anos, o Sr. Lélito planeou acabar com a adega e construir neste local uma casa para a sua filha e netas viverem em Ferreira do Alentejo

Requereu, por escrito, à Câmara Municipal autorização para deitar abaixo a adega e construir uma habitação com 1º andar.

A Câmara Municipal analisou o pedido e verificou que o edifício tinha valor cultural para a terra, pois tratava-se duma adega com taberna, típica e genuína, das poucas que ainda existiam em Ferreira do Alentejo e indeferiu-lhe o pedido.

Com efeito, o edifício da adega é uma construção enorme, com a cobertura em telha vã a cerca de cinco metros do chão. Na rua existe um placa em azulejos toscos feitos pela filha, com o nome da “Adega do Lélito”. Ao entrar, descem-se cinco degraus para um espaço amplo onde fica o balcão e algumas mesas com cadeiras. Ao fundo do balcão, encontram-se enormes talhas, em barro, onde era feito o vinho que o Sr Lélito vendia, mas que agora só são mantidas para preservar a memória daqueles tempos.

 Como era de esperar, na época em que fez o pedido, o Sr. Lélito ficou muito zangado com o técnico da Câmara Municipal que emitiu aquele parecer.

 Contudo, actualmente, o Sr. Lelito diz a toda a gente que foi a melhor coisa que lhe aconteceu. A taberna passou a ser muito mais frequentada, em Ferreira do Alentejo, pois tornou-se mais conhecida pela sua arquitectura e como local de convívio.

O Sr. Lélito, nestes últimos quinze anos, vendeu muito vinho e, à beira de completar os 85 anos, no S.João, vai falando dos projectos que tem e das melhorias que tem realizado, enquando mostra toda  a casa.

A adega do Lélito é, sem dúvida, um dos locais interessantes de Ferreira do Alentejo, e devia ser considerada património vivo, edificado e cultural, a preservar.

A Adega do Lélito devia constar dos roteiros turísticos e como local de visita obrigatória a quem vem a Ferreira do Alentejo, pois é também um local de convívio genuíno.

Publicado por Produções Fictícias às 06:10
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